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Economia

Cresce investimento infantil no Brasil: realidade e desafios

Fátima Marques · Redator

LXF
Cresce investimento infantil no Brasil: realidade e desafios

Famílias brasileiras intensificam poupança e investimento para os filhos

O número de crianças e adolescentes com investimentos vem crescendo no Brasil, impulsionado pelo desejo dos pais de garantir um futuro mais seguro aos filhos e incentivar a educação financeira precoce. Dados da B3 mostram um patrimônio de R$ 3,5 bilhões em nome de menores de idade na bolsa, um salto de 58% em cinco anos. Esse movimento abrange produtos como ações, fundos imobiliários, ETFs, BDRs e títulos do Tesouro Direto, desenhados especialmente para fases distintas da vida dos jovens.

Isabela Marto, ex-autônoma do mercado financeiro, só iniciou um fundo para a filha Elisa quando esta tinha quatro anos, usando-o principalmente para financiar a faculdade, mas mantendo flexibilidade para outros propósitos que surgirem. “Se for necessário para outra finalidade, não vejo problema algum”, conta. O exemplo de Isabela ilustra não apenas a busca por estabilidade para os filhos, mas também o desejo de ensinar práticas que faltaram nos ciclos familiares: “Quero que ela saiba colocar o dinheiro para trabalhar a seu favor, diferente da minha experiência.”

Disparidades de gênero e sociais marcam o acesso de jovens investidores

O progresso no investimento infantil é notável também sob a ótica de gênero. Em dez anos, o número de meninas investidoras subiu 72%, enquanto entre meninos o aumento foi de 50%. Entretanto, as meninas ainda somam quatro em cada dez investidores até 17 anos. Esse avanço é simbólico, considerando a desigualdade salarial persistente entre homens e mulheres. Embora o acesso precoce ao mercado financeiro contribua para maior autonomia, ele não elimina as barreiras históricas.

Produtos específicos, como o Tesouro Educa+ (criado em 2023), têm estimulado a adesão: são 12,9 mil investidores menores de 18 anos nesse título, focado no financiamento da educação superior, e um saldo médio de R$ 2,5 mil por investidor menor. O Tesouro RendA+ destina-se ao desenvolvimento de renda complementar, com 6,7 mil menores de idade participantes.

Ainda assim, a realidade da maioria das famílias brasileiras é marcada pela restrição de renda. Muitas sequer conseguem poupar, dada a prioridade de despesas básicas e altos índices de inadimplência (83,9 milhões de brasileiros com restrições financeiras, segundo Serasa). Nessa conjuntura, especialistas como Cinthia Galeskas recomendam que os pais não se endividem para investir em nome dos filhos, focando primeiro na própria estabilidade financeira.

Educação financeira prática e planejamento a longo prazo são fundamentais

Iniciar investimentos na infância é recomendado devido ao efeito dos juros compostos: quanto mais cedo, maior o patrimônio potencial. Segundo simulação de Matheus Pertile, do BTG Pactual, começar a investir R$ 100 por mês desde o nascimento pode render cerca de R$ 34,5 mil aos 18 anos, com 5% de rentabilidade real acima da inflação. Se o mesmo investimento começar aos 10 anos, é preciso triplicar o valor mensal para alcançar o mesmo resultado.

Apesar dessas vantagens, especialistas destacam que acumular fundos não substitui a educação prática: “Uma reserva composta pelos pais não garante que o filho saiba administrá-la adequadamente”, adverte Galeskas. O diálogo sobre consumo, limites e consequências financeiras deve fazer parte do cotidiano familiar, mesmo antes do início formal dos investimentos.

Na hora de escolher produtos, fatores como liquidez, risco, preservação do poder aquisitivo e perfil familiar são decisivos. Poupança ainda é popular, mas costuma ter remuneração inferior a outros produtos de renda fixa. Títulos públicos indexados à inflação ajudam a proteger o poder de compra, mas exigem atenção ao prazo de vencimento.

O avanço dos investimentos para crianças e adolescentes no Brasil revela não só uma nova consciência sobre planejamento financeiro, mas também expõe as limitações impostas por desigualdades socioeconômicas. Enquanto cresce a disposição das famílias em permitir que as novas gerações entrem no universo financeiro mais cedo, o desafio de incluir todos os jovens permanece. Para muitos, a organização financeira dos pais e o exemplo diário ainda são os maiores investimentos possíveis, mesmo diante dos recursos limitados que muitas famílias enfrentam.

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